FBAR: o formulário de quem mora nos EUA e tem conta no Brasil

Se a soma das suas contas fora dos EUA passou de US$ 10 mil em qualquer dia do ano, o governo americano quer saber. O que é o FBAR, quem declara, como fazer a conta e por que esquecê-lo custa caro.

Um banco no Brasil, uma seta até um formulário e o mapa dos Estados Unidos: a conta brasileira informada ao governo americano.

Quem se muda para os Estados Unidos quase nunca fecha a conta no Brasil. Fica a conta corrente para pagar o que ficou para trás, a poupança, o CDB, a corretora. Para o governo americano, isso tem um nome: conta financeira no exterior. E, passando de um certo valor, ela precisa ser informada todo ano em um formulário próprio: o FBAR.

Não é imposto. Declarar não custa nada e não muda o quanto você paga. Mas esquecer de declarar é uma das falhas mais caras que um brasileiro nos EUA pode cometer.

O que é

FBAR é a sigla de Report of Foreign Bank and Financial Accounts. O nome oficial é FinCEN Form 114. Ele não vai para o IRS: vai para a FinCEN, o órgão do Tesouro americano que combate crimes financeiros, por um sistema próprio na internet. Não é enviado junto com a declaração de imposto de renda.

O formulário só informa: quais contas você tem fora dos EUA, onde estão e qual foi o maior saldo de cada uma no ano. Não há imposto a calcular nele.

Quem precisa declarar

Duas condições, as duas ao mesmo tempo:

  1. Você é US person. Para o FBAR, isso inclui o cidadão americano, quem tem green card e quem é residente pelo critério de presença substancial (os dias passados nos EUA). Empresas, trusts e espólios americanos também entram.
  2. A soma das suas contas no exterior passou de US$ 10.000 em algum momento do ano. Não é o saldo de 31 de dezembro. É o maior valor de cada conta ao longo do ano, somado.

O detalhe que mais pega gente: a soma é dos picos, mesmo que eles tenham acontecido em dias diferentes. E, uma vez passado o limite, você informa todas as contas, inclusive as pequenas.

Não importa se a conta rendeu juros, se estava parada ou se o dinheiro era só de passagem. A pergunta é sobre a conta existir e o valor que ela alcançou.

A conta, com números

Uma pessoa com green card manteve no Brasil, durante o ano:

Conta Maior saldo do ano
Conta corrente R$ 32.000 (em julho)
CDB no mesmo banco R$ 28.000 (em março)
Soma dos picos R$ 60.000

Convertendo pela taxa de câmbio do Tesouro americano de 31 de dezembro (digamos, R$ 5,50 por dólar, só para o exemplo), são US$ 10.909. Passou dos US$ 10.000: o FBAR é obrigatório, e as duas contas entram.

Repare que em nenhum dia do ano as duas contas, juntas, tiveram R$ 60.000. Não importa. O que se soma é o pico de cada uma.

Como chegar ao valor certo

  • O maior saldo de cada conta, na moeda da conta, usando os extratos do ano. Uma aproximação razoável a partir dos extratos é aceita.
  • A conversão é pela taxa oficial do Tesouro americano do último dia do ano, e não pela cotação do dia do pico nem pela do seu banco.
  • Guarde os registros por cinco anos: nome e número da conta, banco e endereço, tipo de conta e o maior valor do ano.

O que entra e o que não entra

Entra:

  • conta corrente e poupança;
  • CDB e outras aplicações mantidas em banco;
  • conta em corretora — a conta é informada, e não cada papel dentro dela;
  • fundos de investimento brasileiros (para os EUA, são estrangeiros);
  • seguro de vida ou previdência com valor de resgate;
  • contas em que você só assina, como procurador.

Não entra:

  • imóvel no seu nome, no Brasil ou em qualquer lugar;
  • dinheiro em espécie guardado em casa;
  • ações ou títulos fora de uma conta financeira;
  • fundos americanos que investem no exterior;
  • benefícios da previdência pública, como o INSS;
  • conta em agência de banco estrangeiro dentro dos EUA.

A previdência privada brasileira (PGBL e VGBL) é o caso que mais divide contadores. Na dúvida, a regra mais segura é informar — e confirmar com quem vai assinar a sua declaração.

Conta conjunta

Cada titular informa o saldo inteiro da conta conjunta, e não a sua parte. Uma conta de R$ 60.000 com o cônjuge vale R$ 60.000 no FBAR de cada um.

Um casal pode mandar um FBAR só quando todas as contas de um dos cônjuges são conjuntas com o outro. Para isso, os dois assinam o FinCEN Form 114a, que fica guardado com vocês e não é enviado. Se um dos dois tiver qualquer conta só sua, cada um faz o próprio.

Prazo e onde enviar

  • Prazo: 15 de abril do ano seguinte, com prorrogação automática até 15 de outubro. Não precisa pedir.
  • Onde: no BSA E-Filing System da FinCEN, pela internet, sem cadastro prévio e sem custo.
  • Não vai junto da declaração de imposto de renda. Mesmo que o seu contador cuide da declaração, confirme se ele também enviou o FBAR.

Por que importa tanto

Porque a multa é desproporcional ao esquecimento.

  • Sem intenção (você não sabia, esqueceu): até US$ 10.000 por relatório, valor que a lei corrige pela inflação todo ano. Em 2023, a Suprema Corte americana decidiu que essa multa é por relatório não enviado, e não por conta. Antes disso, o governo chegou a cobrar por conta, o que multiplicava o valor.
  • Com intenção: o maior valor entre US$ 100.000 e 50% do saldo da conta, também corrigido pela inflação, além de possível processo criminal.

E o assunto não depende só de você lembrar. Brasil e Estados Unidos têm um acordo de troca de informações (o FATCA): os bancos brasileiros identificam os correntistas que são US persons e informam as contas deles.

Esqueci de declarar. E agora?

Existe caminho para regularizar. A FinCEN e o IRS têm procedimentos para quem não enviou o FBAR no prazo — com tratamento melhor para quem se apresenta antes de ser procurado, e quando não há renda escondida junto. A orientação oficial está na página de envio em atraso da FinCEN.

Este é o caso em que vale procurar um contador ou advogado tributarista antes de enviar qualquer coisa: a escolha do procedimento muda o resultado.

O FBAR não é o Form 8938

São dois formulários diferentes, e muita gente precisa dos dois:

FBAR Form 8938
Vai para FinCEN IRS, com a declaração
Limite US$ 10 mil a partir de US$ 50 mil
Cobre contas financeiras contas e outros ativos

O limite do 8938 depende do estado civil e de onde você mora: para quem é solteiro e mora nos EUA, são US$ 50.000 no fim do ano ou US$ 75.000 em qualquer momento. Mandar um não dispensa o outro. E a própria declaração americana pergunta, no Schedule B, se você tem conta no exterior.

As fontes oficiais

Conferido em outubro de 2026 contra as páginas da FinCEN e do IRS. Limites, prazos e multas são revistos todo ano — confira as fontes acima antes de enviar.

E no 12true

O trabalho chato do FBAR é achar o pico de cada conta no ano e converter pela taxa certa. No 12true, cada conta já tem país, moeda e titular, e o saldo de cada dia sai dos lançamentos. O painel de Obrigações fiscais vai usar isso para dizer quando o FBAR é provável, com a conta feita e as contas que entraram nela, para você conferir com o seu contador.

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